Nos ciclos eleitorais, o verbo costuma jorrar solto. Lembrar erros de adversários, principalmente na esfera da ética e da moral, costuma fazer parte de perorações de candidatos. O reino da fantasia acaba se instalando na arena. E, não raro, expressões fortes, denúncias associando atores e histórias escabrosas e até termos chulos, pensados para obter eco, passam a frequentar as falas de palanques.
A despedida de José Serra e Dilma Rousseff de seus afazeres administrativos para começarem a pré-campanha presidencial pareceu um aperitivo da aspereza verborrágica que virá. O ex-governador pinçou a questão do caráter e da honra como coluna de seu estilo de governar. Verberou contra "escândalos, malfeitos e roubalheiras". A ex-ministra acusou tucanos de serem "lobos em pele de cordeiros". O fato é que os dois principais competidores tentam fixar fronteiras entre seus territórios e marcar diferenciais. Donde emerge a questão que permeará o pleito: há diferença entre pontos de vista de ambos sobre a maneira de governar o País?
As gramáticas escritas por tucanos e petistas, quando expurgados exageros, descrevem abordagens semelhantes na forma de conceber o papel do Estado e a administração do governo. As duas siglas, como se poderá constatar, conservam parentesco. Mais ainda: a estrada em que correm seus trens tem o nome de social-democracia. Em 1989 o tucanato delineou seu primeiro traçado com o documento Os desafios do Brasil e o PSDB, em que pôs, lado a lado, densa pauta definindo o papel do Estado na condução de programas econômicos e sociais. O PT, fundado em 1980, repudiou, no primeiro momento, a social-democracia, considerando-a inepta para vencer o "capitalismo imperialista". Passou bom tempo, mesmo após a queda do Muro de Berlim, cultivando a velha utopia, até aceitar, não sem resistências internas, a realidade imposta por novos paradigmas. O mundo deu uma guinada ideológica, integrando escopos do reformismo democrático, do realismo econômico e dos avanços do capitalismo.
Sob esse pano de fundo, o PT produziu, em junho de 2002, a Carta ao Povo Brasileiro, peça-chave para a vitória de Lula, pavimentando, assim, sua entrada no território da social-democracia.
O documento foi decisivo no processo de descarte de dogmas que não resistiram aos ventos da modernidade. Vejamos. A revolução marxista permanece viva apenas no campo da literatura. O socialismo utópico evapora-se nos ares da abstração. As ideologias cedem lugar aos ismos da modernidade: pragmatismo, capitalismo (mesmo sob um Estado controlador) e liberalismo social. Os modelos alternativos, de economias assentadas na solidariedade, cedem lugar a programas reformistas, voltados para atender a demandas pontuais e urgentes.
As autonomias nacionais passam a se impregnar de ares globalizados. O crescimento desordenado e a qualquer preço é balizado por metas de inflação. Os programas de privatização (combatidos pelo PT no ciclo FHC) integram a pauta dos contextos econômicos. O nacionalismo, bandeira recorrente na América Latina, abre espaço para ingresso de capitais internacionais. Gastos a fundo perdido são, agora, regrados por normas de responsabilidade fiscal. Ações radicais, como programas reformistas no campo, nos termos que exige o MST, são substituídas por ações racionais com foco na agricultura familiar. O respeito aos contratos, princípio fundamental para a credibilidade de um país, ganha força, retirando da parede a corroída moldura da moratória. (Em fevereiro de 1987, no governo Sarney, o Brasil anunciava a suspensão do pagamento de sua dívida interna. Tempos insanos.)
O que significam tais reconfigurações de padrões? Nada mais que a implantação de um modelo de gestão responsável e eficaz, comprometido com crescimento, preservação da estabilidade macroeconômica, atendimento às demandas sociais, enfim, administração equilibrada das relações entre Estado, mercado (capital) e sociedade. Esse é o eixo que a social-democracia vem tentando aprofundar em seu berço, o continente europeu, e que por essas bandas é visto com simpatia tanto pelo PSDB quanto pelo PT.
Portanto, a distância oceânica que ambos procuram demonstrar é a mesma entre o olho esquerdo e o olho direito. Um olho pode até querer enxergar o norte e o outro, o sul. Ambos, porém, habitam a mesma cara. Estão próximos. Vez ou outra os olhares se cruzam.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político



