Sintonia Fina - 268 x 60
Enquete - 728x90

ARTIGO: É preciso repensar as cidades

Publicado Quinta-feira, 05 de Agosto de 2010 as 09:53h Faça seu comentário

* Por Marcos Cintra 

Entre o final de 2010 e o início de 2011 a população mundial alcançará sete bilhões de pessoas, sendo que as cidades abrigarão 3,6 bilhões desse contingente. Daqui quinze anos o planeta terá oito bilhões de habitantes e cinco bilhões deles estarão morando nas cidades. Estima-se que no mundo cerca de duzentas mil pessoas deixam o campo todos os dias rumo às cidades.

A população urbana que hoje representa pouco mais da metade das pessoas no planeta será superior a 60% em 2025 e essa acelerada expansão cria perspectivas de caos nas grandes e médias cidades do mundo. Nos países em desenvolvimento como o Brasil a preocupação é mais acentuada porque muitas delas já enfrentam situações precárias em vários aspectos e um contingente adicional de pessoas em tão pouco tempo pode gerar um colapso urbano sem precedentes. Segundo o IBGE, a população brasileira de 193 milhões de pessoas passará para 216 milhões daqui vinte anos.

Cerca de 165 milhões de brasileiros vivem nas cidades e por volta de 2030 eles serão 195 milhões. As áreas urbanas do país estariam se preparando para absorver mais trinta milhões de pessoas?

A questão do crescimento populacional nas áreas urbanas não pode ser omitida pelos gestores públicos. Grandes e médias cidades em todo o país já convivem com situações preocupantes em termos de moradia, transporte, abastecimento de água, segurança e emprego, apenas para citar alguns dos principais problemas, e a maior contingente de pessoas irá acentuar a degradação das condições de vida em muitas delas.    

Metrópoles como São Paulo, por exemplo, já sofrem com problemas urbanos agudos, que poderão se intensificar a ponto de produzirem colapsos de natureza ambiental, social e infra-estrutural. A cidade convive com sérios problemas de poluição e de congestionamentos, comprometendo seriamente a qualidade de vida de seus habitantes.

Em apenas 48 anos a população da cidade de São Paulo quase triplicou, saindo de 3,8 milhões de habitantes em 1960 para onze milhões em 2010. Ou seja, 7,2 milhões de pessoas a mais passaram a residir na capital paulista num espaço relativamente curto de tempo, número equivalente, por exemplo, à população de uma cidade como Londres.

Em termos de ocupação do solo a mancha urbana na capital paulista cresceu desordenadamente. Houve proliferação de favelas e de loteamentos irregulares. Foram sendo ocupados terrenos públicos e privados e hoje um terço dos moradores em São Paulo vivem nessa situação subnormal e ilegal. Surgiram vários problemas angustiantes relacionados ao abastecimento de água, destinação do lixo, esgotamento hídrico, poluição e congestionamento.

É indispensável que os gestores públicos adotem uma postura responsável frente ao problema do crescimento populacional, deixando de empurrá-los para debaixo do tapete, como sempre ocorreu no Brasil. É urgente pensar e repensar a vida urbana no país.

Infelizmente, planejar em médio e longo prazos nunca foi uma qualidade na gestão pública brasileira, mas o quadro que se apresenta exige essa postura e sua diretriz básica deve contemplar ações que integrem prefeitura, Estado, União, entidades privadas e universidades. É a qualidade de vida das próximas gerações que está em jogo.


Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. Internet: www.marcoscintra.org / E-mail- mcintra@marcoscintra.org

Nenhum Comentário
  1. Seja o primeiro a comentar.

Comentar