No início de meu período de governo, a principal crise era a de mentalidade. U m país com cacoetes de colônia e uma enorme paura de se abrir ao mundo. Resultado: um Estado mastodôntico, ineficiente, patrimonialista e olimpicamente seguro de ser apto e competente para se bastar a si mesmo.
Enquanto isso, uma realidade mundial já mofava às nossas portas, esperando uma nova Agenda. Vindo com atraso, mas vindo, passando por cima de pau e pedra, enfrentando preconceitos e complexos, ela pôs fim à era dos donatários, inquilinos privilegiados de enormes fatias de mercado, e dependentes dos humores, da complacência e da benevolência de governos.
Isto por um lado. De outro, além da administração de mudanças profundas naquele quadro, havia crises emergenciais a serem enfrentadas, a despeito dos esforços realizados pelo governo anterior no sentido de amenizá-las : o país em moratória, inflação de mais de 80 por cento ao mês, reservas internacionais irrisórias, linhas de créditos internacionais interrompidas. Como agravante, sobreveio a guerra do Golfo e suas conseqüências para os mercados mundiais.
Crises existem para serem enfrentadas. Nessas proporções, as chances de êxito aumentam quando se tem uma boa, pessoal e indispensável convivência com outros chefes de Estado ou de Governo. Foi graças a um ambiente de solidariedade e confiança na Agenda implantada que o Brasil superou essas dificuldades. Teria sido muito difícil num cenário de protagonismos e enfrentamentos desnecessários. A renegociação de nossa dívida -juros atrasados, Clube de Paris e bancos privados- teve a colaboração e a compreensão de vários líderes mundiais.
Ao prematuro final de meu governo, a principal crise era a de credibilidade.
Submetido à denúncias nunca provadas e a ataques furiosos daqueles que tiveram seus interesses contrariados pelas medidas que adotei, estabeleceu-se a dúvida sobre a lisura do governo e a crença em sua capacidade de administrá-la. A crise política por que passei também foi superada. O Brasil estava amadurecendo rapidamente, e se preparando para o futuro com a mesma Agenda iniciada em 1990.



