Por: J.R.Sant´Ana
As pessoas que buscam o elemento comum que motiva matadores de estudantes em escolas enfrentam a perplexidade da falta de respostas. Em muitos dos casos que se tornam clássicos, não há motivação imediata que ligue o matador a problemas sociais, políticos ou de comportamento. Não raro, o perfil de um atirador deste tipo é avaliado como de pessoa integrada, sem dramas sociais maiores que dos demais jovens.
As tradicionais justificativas socioeconômicas, de desestruturação familiar e de comportamento ressentido deixam de sugerir eficiência suficiente para apaziguar os ânimos pela certeza de que a convivência social está sob controle. Não está. A sociedade não tem condições de garantir a si mesma a certeza de que episódio semelhante não irá acontecer a qualquer momento. Aqui ou ali.
Questões tão silenciosas quanto inquietantes pesam na atmosfera. Que escola tem condições de vistoriar mochilas à entrada de seus alunos em busca de armas? Lojas, casas de espetáculos? Que ação preventiva pode ser feita se não há conhecimento da motivação para atos assim desproporcionais? Que tipo de coerção pode se imputar a quem previamente já se decidiu pelo suicídio?
A falta de respostas remete ao terror. Este é diferente do medo. A característica do medo é que ele inclui preparo. Sabe-se o que enfrenta, por isso a temeridade. Já o terror é a evidência completa do despreparo para enfrentar uma situação sob a qual não se tem controle. É o caso, devidamente traduzido nas manchetes. “Terror no Rio”. Cenas de desespero pela televisão. Considerações de especialistas em todas as frentes. O show da notícia. Pura sensação.
No abjeto “como você está se sentindo?” dos repórteres de rádio e televisão pode estar uma difusa pista para entender algo deste tipo de tragédia e outras menores do dia a dia, como o bulling. Algo que aponta para toda a cultura, para a vida de todas as pessoas.
Filósofos, entre alertas e denúncias, mostram que o bombardeio audiovisual imposto pela mídia muda as pessoas para pior. O problema começa pela cultura, chega a alterar o sistema nervoso das pessoas e sufoca o que popularmente se chama de espírito, a ponto do indivíduo sentir-se vazio e perder o sentido da vida.
Pelo excesso audiovisual, as únicas convicções que as pessoas passam a ter é cumprir os comportamentos determinados pela propaganda. O que move o coletivo a partir daí é a certeza dos sonâmbulos. Como sonambulismo não é um estado natural nem ideal para as pessoas, problemas acontecem. Às vezes terminam em assassinatos, rotineiramente se manifestam por bulling, em depredações de espaços públicos, linchamentos e agressões a professores.
Recentemente em São Carlos e Campinas, o filósofo midiático alemão Christoph Turcke divulgou resultados de sua última pesquisa sobre os efeitos dos meios audiovisuais nas pessoas. Em síntese leiga, pode-se dizer que a seu ver as pessoas estão sufocadas, sem qualquer intervalo para fôlego, por um oceano de informações que as priva da própria identidade.
Na prática, o indivíduo não sabe exatamente quem ele é. O que ele sente como individualidade é apenas o desejo de se contrapor ao anonimato exibindo-se de alguma maneira. Por isso, o anseio comum das pessoas é tornarem-se celebridades, mesmo que seja por minutos. Todo mundo quer aparecer, “ser mais eu”.
Hoje, o cidadão comum sente-se ameaçado diante da perspectiva de não ser notado, daí a iniciativa de ocupar espaços sociais, no trabalho, em associações, clubes e, preferencialmente, na mídia, de onde vem a imagem referencial de seus ídolos.
O resultado cultural disso tudo promete ser devastador. Um mundo de sonâmbulos programados por máquinas. Não é sem motivo a revolta humanística inconsciente contra a tirania das máquinas tão figurada nos filmes de ficção.
Ao analisar a história do conhecimento e das comunicações desde a origem da cultura até as operações da realidade virtual, Turcke conclui que a civilização atual encontra-se submetida ao império das sensações. Para prejuízo da percepção individual, que seria o radar da pessoa equilibrada em relação ao mundo real.
No demais, tudo é sensação. Os meios de comunicação sustentam o processo fornecendo doses cada vez mais fortes e maiores de sensação para manter o mercado funcionando. Nada mais existe além de propaganda. Pensar, sentir, crer, são práticas consubstanciadas por propaganda. Política é propaganda.
Autenticidade e verdade são apenas instrumentos para dar credibilidade à propaganda, que, fundamentalmente, é o avesso de ambas e as dispensa tanto quanto for possível.
Diz o filósofo, que, ao contrário da informação midiática orientar a pessoa, ela a ofusca. Da mesma maneira que a vela acessa na escuridão cega o caminhante à luz da lua, que seria suficiente. O embotamento por doses progressivas de sensações pode ser entendido como resultado da liberdade de opção individual tanto quanto o resultado da liberdade da libélula, que é livre para se queimar no fogo, e nele se queima, ironiza Turcke.
Celulares, fones de ouvido, monitores, telas, vídeos games, baladas, luzes, plástico. Este é o show real, ao vivo, com câmeras por toda parte. O desejo do consumidor é apoderar-se de tudo isso.
Só que este desejo não pode ser admitido por ser ridículo. Daí a frustração é permanente e inconfessa. O sentimento de nada ser, porém, se expressa em tatuagens e piercing, tipos e marcas de roupas que transformam a pessoa em suporte de informação. Conforme Turcke, “são as marcas de Caim”, o primeiro a ser identificado e protegido por uma marca publicitária.
Agulhar-se ritualmente é informar ao sistema nervoso da própria existência. É afirmar-se como existência em um mundo onde tudo é vazio. Vale como uma autoafirmação física que nenhuma transmissão de dados virtuais pode oferecer. Pois, sim, uma revolta contra a incapacidade da realidade virtual oferecer satisfação verdadeira. O equivalente verifica-se em esportes radicais, em que pacatos trabalhadores de escritório arrojam-se aos maiores perigosos para ter a sensação de que existem. É uma compensação pela identidade sufocada.
Em grau mais elevado a compensação deixa de ser suficiente para exigir recompensa, ajustes de contas ou mesmo vingança. Nestes casos, verificam-se a adesão a drogas, gangues, seitas, a ataques a transeuntes, a colegas de escola, professores e familiares.
Esses ataques não são acertos de conta por motivo certo e determinado, mas resposta a um ambiente de indiferença, de fugacidade, onde nada tem valor. No caso, luta contra a sensação de impotência de quem se debate com um colchão de ar que não oferece qualquer resistência, não oferece resposta. Nem condenação. Nada.
Pais, educadores e autoridades públicas que se esquivam de impor limites às crianças e adolescentes fazem o mesmo que o colchão de ar. Não oferecendo resistência, aniquilam o processo de educação por dele retirar a idéia de valores, de respeito e responsabilidade. Pela voga de “não traumatizar” as criança com repreensão, os adultos as atiram á prática do bulling. Até às balas, é uma questão de tempo, circunstância e intensidade.
Pelo aumento da intensidade do sensacionalismo, atiradores em espaços coletivos é tragédia anunciada. Aliás, eles costumam antecipar suas iniciativas pela internet, com recados misteriosos, pistas. Obviamente, aprenderam pela mídia. A cobertura sensacionalista de agora tem condições suficientes para estar substanciando os planos do futuro atirador.
O moto é contínuo. O ciclo é vicioso. Propulsora do avalanche de sensações, quanto mais a mídia tenta “cumprir seu papel de esclarecer e alertar para o problema”, mais o problema cresce. A cada novo espetáculo, mais individualidades estarão desfiguradas.
As pessoas estão pressionadas para consumir e exigir sensações.
Responder a elas pelos meios de comunicação é perpetuar a pressão. O paradoxo lembra a piada do louco. Perguntado sobre o motivo de bater a cabeça na parede, ele respondeu que “a sensação é muito agradável quando eu paro”. Como ele não quer perder a sensação, ele bate a cabeça. Cada vez mais forte.

