Por Geraldo J. Costa Jr.
O poeta se faz do barro da revolta. Esta é minha crença. É algo pessoal. Que não deve ser aceito ou entendido como verdade porque é apenas o meu modo de ver as coisas. Aquelas pelas quais tenho profundo respeito e gratidão porque me ajudaram a entender e suportar a vida. E elas mais do que a prosa ou a poesia são as informações, o convite à reflexão, as revelações (ao menos para mim) que encontro nos livros. E tendo sido assim, ao longo de 42 anos, desde o primeiro que me atrevi a lê-lo, aos 12 anos, aluno da 6ª. série da Escola Monsenhor Martins. O título do livro, digamos, sugestivo: O Menino de Asas, de Homero Homem. Depois, fucei alguma coisa de José Mauro de Vasconcellos, hoje, tão esquecido (por que será). E pasmem os finados leitores, jamais me deixei levar pelos encantos de Pedrinho, Narizinho ou Emília, embora reconheça a importância deles e do colega de Taubaté para a Literatura Brasileira. Afinal, um homem se faz com livros.
Às vezes me custa acreditar, por exemplo, que As Aventuras de Nick Adams estiveram durante toda a minha adolescência ao alcance de minhas mãos, mais exatamente na escrivaninha que havia no quarto lá de casa, onde, tarde da noite, meu irmão oito anos mais velho que eu, falava sobre espaçonaves, filmes e Jimi Hendrix, enquanto consumia o seu maço de Minister, encostado na janela.
Não conheci Nick Adams, mas fui apresentado a Robert Jordan e ao velho Santiago. E de certa forma, paguei minha dívida de gratidão com o tio Ernie, de modo a nos tornamos, enfim, bons amigos. Assim espero.
Não desejaria afirmar tal ousadia, porque meu sobrenome bem poderia ser contradição, ainda bem, mas os livros ajudaram a transformar um garoto revoltado, ateu, irresponsável e inconsequente em uma pessoa digamos suportável, consciente de seus deveres e pacifista, que, sem se arrepender, depôs as armas com as quais pretendia agredir e destruir o semelhante e o mundo.
Evidentemente que a maior parte, a mais decisiva coube aos pais de tal criatura que não por acaso, acho que já deu pra perceber, sou eu mesmo.
Exatamente por esse motivo me causa perplexidade a notícia de que em menos de uma semana por duas ocasiões, alunos da rede pública de ensino de Rio Claro trataram de rasgar livros e cadernos. O primeiro fato se deu no último dia 02, no bairro Inocoop nas imediações da Escola Estadual Professor Délcio Báccaro. E o mais recente, ontem, próximo à Escola Estadual João Batista Negrão, localizada no Jardim Guanabara II.
À parte a indignação natural que tais atitudes causem às pessoas que tem a consciência da importância dos livros na vida de um ser humano, sugere e instiga ao mesmo tempo a vários questionamentos e a uma profunda reflexão.
De minha parte, não resta dúvida. O recado está dado. E de maneira bastante clara. Ao praticar um ato de desprezo a alguma coisa, a pessoa demonstra que aquela coisa não lhe desperta nenhum interesse e não tem para ela nenhuma importância.
No caso dos alunos em questão, são dois os recados. Os livros, para eles, não tem nenhuma importância, porque, inclusive o ignoram. Porque lhe despertam mais interesse os computadores, celulares e esses aparelhozinhos de moderna tecnologia, que lhes permitem uma interação instantânea com as pessoas e os acontecimentos do tempo presente, que é o que lhes interessa, uma vez que o futuro, já diziam os seus pais e avós, à Deus pertence, e o passado sequer lhes foi apresentado. Assim como o livro não lhe foi apresentado nas escolas de um modo agradável, estimulante e valioso. E se não foram os livros, menos ainda o seu conteúdo, e em nenhum momento, os seus autores. Então como que estes alunos podem gostar e ter interesse por livros?
O segundo recado, é que a educação pública neste país vai de mal a pior, sucateada, ultrapassada, parada no tempo e no espaço, necessitada para ontem de uma revolução. Porque não desperta mais interesse no aluno que, antes de reconhecê-la como um caminho natural e necessário à sua sobrevivência em um mundo cada vez menor e mais competitivo, a encara simplesmente como obrigação, mal necessário, o que, ao invés de libertá-lo para a vida, o torna prisioneiro da ignorância e de todos os malefícios dela advindas.
Se os atos praticados pelos alunos merecem repúdio e até punição, estes mesmos alunos merecem de nossa parte o devido carinho e atenção. São seres humanos em período de formação de caráter.
Merecem e precisam de todo o interesse e esforço da sociedade em ajudá-los a mudar os seus paradigmas, a ver as coisas que ora detestam de maneira positiva, com outros olhos, porque estas mesmas coisas, ao invés de serem suas inimigas ou inconvenientes, são suas aliadas. E dentre estas coisas, estão os livros, está o conhecimento que os livros podem lhes proporcionar, está a educação, a única coisa que pode prepará-los para a vida para que a vida seja para eles algo bom e prazeroso, e para que eles possam devolver o mesmo à vida e ao mundo ao qual pertencem na mesma proporção.
Ou encaramos o desafio. Ou continuaremos a produzir às fornadas, cidadãos revoltados, ignorantes, descrentes dos valores humanos e morais que, num futuro próximo estarão interferindo efetivamente e, alguns até de modo decisivo, nos destinos de uma sociedade à qual todos nós pertencemos.
Um trabalho imenso, que só será levado a êxito com dedicação, persistência e, acima de tudo amor pelo ser humano, que deve envolver todos os setores da sociedade, todos, sem nenhuma exceção. E que ainda está por começar, embora sua necessidade e importância sejam reclamadas desde ontem, para não dizer, desde décadas, em um país como o nosso que precisa entender vez por todas que ascensão social, política econômica só se sustenta com educação.
(O colaborador é cronista)
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